Já não se produz mais notícia como antigamente

e-palavramundo
3 min readAug 25, 2021

Tem sido um período intenso e aparentemente vazio. Para o jornalismo especialmente.

A pandemia tem esse efeito anestésico de suspender projeções e anuviar os horizontes. Por mais que se fale sobre as oportunidades geradas pelo normal a que nos forçamos a assimilar, perceber o que está adiante tem sido tão desafiador quanto dirigir sobre uma estrada sinuosa diante de uma neblina cerrada.

Ao acompanhar os debates contemporâneos, a gente se dá conta do quanto de mudanças a pandemia tem acelerado nesse setor de divulgação de informações. Na sala de aula, tentávamos captar um cenário de transformação digital pré-pandêmico e que impactos já trazia para a profissão de jornalista.

Em primeiro lugar, é interessante pensarmos uma ideia de futuro inscrita nos sinais do presente. Pequenos jornais forçados a lidar com a perda de anunciantes, por exemplo, estão migrando para os meios digitais e buscando formas alternativas de investimento com sucesso na América Latina. E a pandemia catalizou boa parte das energias despendidas nessa direção.

Na formação em jornalismo, o espaço para discutir o mercado para além da produção de notícias tem sido pouco acolhedor. Jornalista tem de fazer jornalismo. O mercado é coisa para administrador, publicitário, “marketeiro” ou qualquer outro alienista com o qual nós, jornalistas, nos relacionamos.

É claro que qualquer trabalho em comunicação é coletivo. Mas foi-se o tempo em que os jornalistas não precisavam se envolver com todo o processo de fazer circular as informações que produziam. Ao contrário, as noções de modelos de negócio, formas de divulgar o próprio trabalho, de se relacionar com clientes e “tarefas” similares estão hoje incorporadas ao cotidiano da produção.

A Kinght Center está oferecendo agora um curso interessante a respeito: Estratégias de produto no jornalismo: Como alinhar conteúdo, audiências, negócios e tecnologia. E o programa está centrado nas oportunidades de proposição de produtos diferenciados no jornalismo. Sim, como uma atividade preocupada com a própria monetização, a sustentabilidade do negócio, as “dores” dos clientes e essas coisas estranhas à vocação sacralizada de fiscalizar os poderes.

Precisamos muito do jornalismo em tempos sombrios como os atuais. Ao mesmo tempo o percebemos distante do socorro ao estado democrático de direito e da qualificação do senso comum. Pelo menos o jornalismo mainframe, como chamamos as produções clássicas. De fato, há muito mais coisas entre a produção e o produto que a vã filosofia profissional ainda pressupõe.

O que os públicos desejam saber? Não cabia perguntar a respeito quando se pensava em pautar uma cobertura. A BBC News percebeu há algum tempo que 70% das notícias produzidas diariamente movimentavam menos de 20% do tráfego de leitura. E mudou sua estratégia para entender as necessidades de informação de seus assinates espalhados pelo mundo.

Isso implica acrescentar maneiras diferentes de produzir materiais de interesse público (agora também do público), focando esforços em temas mais contextualizados, de maior fôlego e abrangência. Implica também aprender a lidar com ferramentas de métrica, técnicas de engajamento e por aí vai.

Tem sido um período intenso, dizíamos, e o vazio talvez esteja no platô do mais do mesmo. Produtos jornalísticos fora do escopo dos cânones dão passos cada vez mais sólidos na busca de alternativas. E uma coisa já é certa. Não se produz mais notícia como antigamente.

Luciano Bitencourt

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